Texto escrito por Gabriela Titon, jornalista e fundadora da Ninna Conteúdo.

Quando terminei de maratonar os oito episódios iniciais de Las Chicas del Cable, minha primeira reação foi: “é sério que acabou? quero mais”. Com discussões relevantes, estética primorosa e atuações impecáveis, a série de estreia espanhola da Netflix é um título indispensável para quem gosta de produções audiovisuais impactantes. Dentre as várias razões para assisti-la, listei cinco que podem ajudar na decisão:

1. Personagens femininas fortes

Las Chicas del Cable conta a história de quatro mulheres que se conhecem ao conseguir um emprego na companhia telefônica da Espanha, na década de 1920. Alba (Blanca Suárez), Marga (Nadie de Santiago), Ángeles (Maggie Civantos) e Carlota (Ana Fernández) possuem personalidades distintas, mas um sonho em comum: a liberdade.

Ser livre era quase inatingível numa época em que “as mulheres eram vistas como acessórios para se exibir nas festas, objetos incapazes de expressar opiniões ou tomar decisões”, como mostra a narração de Alba logo no comecinho. Aliás, o texto narrativo é um dos grandes motivos de aplausos.

Além dos quatro nomes centrais, outras mulheres se destacam, como é o caso de Sara (Ana María Polvorosa), supervisora na empresa e uma das minhas personagens favoritas por sua força, inteligência e ousadia.

las chicas - empoderamento

2. Temais atuais

Embora seja ambientada em 1928, Las Chicas levanta discussões que permanecem contemporâneas. Enquanto Ángeles sofre situações de violência doméstica resultantes de um relacionamento abusivo, Carlota luta para se tornar independente diante de um pai autoritário e ultraconservador.

A produção também dá abertura para o envolvimento afetivo entre Carlota e Sara, abordando a sexualidade feminina com sensibilidade nessa e em outras relações da história. Esses são alguns dos conflitos levantados para permear um questionamento central: o papel da mulher na sociedade.

E, apesar de a trilha sonora ‘moderninha demais’ ter sido criticada, acredito que essa foi uma escolha estratégica para deixar nítida a relação entre passado e presente. Inclusive, preste atenção na abertura maravilhosa, que tem a mesma pegada.

3. Sororidade e empoderamento

Com o desenrolar da história, as quatro protagonistas se tornam grandes amigas e passam a enfrentar juntas seus problemas. A amizade, consequentemente, proporciona um cenário de apoio mútuo para que todas se empoderem e assumam o controle de suas vidas.

A partir daí, observamos transformações inspiradoras em personagens oprimidas no início da trama, como Ángeles, que enxerga a abusividade do marido e decide dar um basta na situação. Marga, uma garota vinda do interior e insegura inicialmente, também constrói uma autoconfiança admirável ao escutar conselhos de suas colegas.

las chicas - independência

4. Luta por direitos

A série é entrelaçada por conflitos amorosos marcantes (principalmente envolvendo Lidia), mas os romances são mantidos como pano de fundo. Isso porque existe algo mais importante em jogo: a luta por direitos.

Um dos direitos retratados é o de trabalhar, fator responsável por garantir independência financeira às mulheres. Quase nove décadas depois, essa continua sendo outra pauta atual. Entre os diversos contextos que reafirmam a desigualdade de gêneros, alguns incluem a jornada tripla (profissional, mãe e dona de casa), a disparidade de oportunidades, os entraves para ocupar posições de liderança e o assédio sofrido em ambientes de trabalho.

Las Chicas também faz alusão ao movimento sufragista, considerando que, até então, não era permitido que as mulheres votassem em eleições políticas. Na Espanha, esse direito foi assegurado apenas em 1931. No Brasil, a conquista do voto feminino aconteceu no ano seguinte.

5. Teste de Bechdel

Las Chicas atende aos três requisitos do Teste de Bechdel: tem no mínimo duas mulheres (com nomes); as mulheres conversam uma com a outra; o tema da conversa é sobre alguma coisa que não seja um homem. O teste foi criado pela cartunista Alison Bechdel há 30 anos e, mesmo parecendo simples, ainda reprova muitos filmes e séries. As regras não garantem que a produção seja boa, mas indicam que as personagens interpretadas por mulheres não são relegadas a papéis secundários.

Só para se ter uma ideia, a questão da representatividade feminina na indústria cinematográfica é tão importante que, ao digitar “atuações excelentes” no Google, o resultado que tive foram fotos de nove homens e ne-nhu-ma mulher. Justamente por esse e outros exemplos, fico orgulhosa ao prestigiar uma série cujo espaço primordial é ocupado por mulheres talentosas e personagens femininas incríveis.

Confira o trailer do Las Chicas del Cable

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Gabriela Titon é jornalista e fundadora da Ninna Conteúdo. Viciada em séries, sempre recomenda produções audiovisuais com personagens femininas fortes e desenvolve trabalhos para contribuir com o protagonismo de mulheres.

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