Aurora significa uma série de coisas. Para a astronomia, é a claridade da manhã, aquela que antecipa o nascer do Sol. Para o latim, de aurum, significa ouro. Para quem gosta de moda boa de verdade, daquelas que trazem arte e história, significa sapatos. Sim, Aurora (mais especificamente A-aurora) também é sinônimo de calçados contemporâneos com referências estéticas da década de 70 e feitos no Brasil.

rioetc2Os pais de Izabella trabalhavam muito quando ela era pequena. Por isso, a menina passava bastante tempo com os seus avós que vieram da Bahia: ele alfaiate e ela costureira. Em meio a aviamentos, linhas e tecidos, ela foi criando gosto pela área. Quando ficou mais velha e precisou escolher para o que prestaria vestibular, não podia ser diferente, o curso de moda foi o que recebeu a sua atenção.

E foi graças a essa graduação que ela encontrou, meio por acaso, a sua paixão pelos sapatos. Durante o curso na PUC RJ, Izabella teve uma matéria eletiva de calçados. Foi amor à primeira vista: o processo de produção e confecção ganhou a sua atenção. Nas palavras dela, “fui abraçada por essa paixão. Foi maior do que eu e inevitável. Eu não dava atenção para mais nada”. Para entender mais sobre a área, Iza visitou diversas vezes o atelier do modelista que deu a matéria na universidade. Por lá, acompanhou as suas produções e adaptações e foi entendendo cada vez mais que esse era um caminho sem volta para a sua vida profissional.

A sua produção de sapatos começou pequena, mais como um teste mesmo. As pessoas que tinham interesse em adquirir um dos seus calçados precisavam fazer uma encomenda. Izabella diz que naquela época A-aurora ainda não era exatamente uma marca, mas sim um projeto. Era um teste para que ela conseguisse entender quais eram seus objetivos, linguagem, estética e estilo. Com o tempo, a empreendedora foi amadurecendo, o que se refletiu diretamente na marca.

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A-aurora virou realmente um negócio quando Izabella entendeu que era importante pensar de maneira estratégica. Para que um empreendimento dê certo, é fundamental entender o mercado, desenhar objetivos para a companhia, criar estratégias de marketing e por aí vai. “Antes era tudo muito mais lúdico e criativo”, afirma Iza. Foi apenas quando ela perdeu o medo de se envolver em todas essas áreas (medo que por sinal é muito comum no início de um negócio), que o projeto virou uma empresa.

Se for para falar da A-aurora em pleno 2018, podemos dizer que ela entrega muito mais do que sapatos. Por ser um reflexo direto de Izabella Suzart, a marca trabalha com uma identidade que fala do Brasil e do momento que a moda vive atualmente: de consumo consciente, de valorização da própria identidade e de referências históricas. Tudo isso não é por acaso. Iza encara cada um dos seus projetos misturando arte e autoconhecimento. “É como se eu estivesse fazendo uma pintura. Cada sapato é uma obra de arte, que dialoga diretamente com a minha história. Fala de onde eu vim e mostra para onde eu vou. Eles também têm relação direta com os meus valores”, afirma ela. O resultado, além de calçados, é uma produção com trabalho ético, na qual fornecedores recebem o que de fato merecem e todos saem ganhando.

O modelo da A-aurora também mudou um pouco desde o nascimento da marca. Em 2017, Izabella decidiu sair do formato sob-encomenda e entrar no de estoque. Para isso, ela relançou alguns modelos que fizeram sucesso anteriormente, como o Olívia, por exemplo. Com esse par de sapatos, ela foi chamada para expor na mostra “O Design e a Madeira”, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM).

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Além de vender no seu próprio e-commerce, A-aurora também está presente em algumas lojas multimarcas. Esse é, inclusive, o foco de trabalho da Iza nos próximos meses. Seu objetivo é levar a marca para mais pontos de venda, em lojas que valorizem o slow fashion e que trabalhem com produtos com identidade forte.

Izabella Suzart além da A-aurora

Iza precisa se desdobrar em uma série de tarefas para manter a sua marca funcionando. Porém, desenvolver a criatividade e buscar inspiração é muito importante para ela. Quem trabalha com criação não pode simplesmente ficar o dia inteiro na frente de planilhas no computador, né?!

IMG_2547 (1)Por isso, Izabella gosta de dedicar um tempo do seu dia para ler, desenhar e sair um pouco do escritório. Além disso, ela também tem o hábito de praticar esportes, que são fundamentais para a saúde como um todo, inclusive mental. “Eu preciso me exercitar. Por isso, medito, faço pilates e vou para academia. Tento cuidar do meu corpo, para cuidar da minha saúde mental. Isso é muito importante, principalmente para nós mulheres negras. Precisamos estar fortes, caso queiramos ser empreendedoras. Precisamos ser firmes nos negócios, sem essa de sair para chorar. Para ocupar esses espaços, precisamos está com a cabeça plena e os exercícios ajudam nisso”, conta Izabella.

A empreendedora também busca inspiração em outras mulheres. Iza tem cinco grandes exemplos, que inclusive têm um cantinho especial no seu mural de inspirações no escritório. São elas:

Shonda Rhimes, a criadora dos seriados de sucesso que a gente adora, como Grey’s Anatomy, Scandal e How to Get Away with Murder. É uma inspiração por conseguir trazer assuntos em pauta de uma forma muito natural. Seus personagens vivem dilemas que de fato acontecem na vida real.

Oprah, a apresentadora mais famosa da história televisão. É uma inspiração por ser uma excelente comunicadora, e também trabalhar com uma forma de pensar muito interessante, que envolve a mentalização de objetivos que devem ser alcançados.

Solange Knowles, cantora e compositora. É uma inspiração pois traz em seus clipes uma estética muito única e interessante. Além disso, sempre cita autoras negras americanas em todas as suas entrevistas.

Grada Kilomba, artista interdisciplinar e escritora. É uma inspiração por ser uma intelectual que, entre outros assuntos, aborda o conceito de descolonização do pensamento.

Ava DuVernay, diretora, roteirista, publicitária e distribuidora de filmes. É uma inspiração por ser múltipla. Com seu trabalho ela dirige desde fashion films até documentários que falam sobre o sistema carcerário americano.

A dica de Iza para quem deseja empreender

Izabella compartilhou uma dica especial para as mulheres que desejam empreender. Segundo ela, “saiba quem você é. Entenda que você é completa e o seu próprio eixo. O seu início e o seu fim”. Essa é a primeira dica para qualquer pessoa que pretende abrir um negócio. De acordo com ela, precisamos entender que não precisamos dos outros, pois já somos completos. Sim, devemos nos unir a outras pessoas, mas daí esse coletivo é para transbordar.

A dica específica dela para quem deseja empreender na área da moda é “se prepare, porque é ralação. Visite lugares diferentes e conheça outras pessoas”.

Crédito das imagens: Equipe Rio Etc.

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